O limiar do surto

Blog de Rodrigo Della Santina

“MUITOS HOMENS

possuem também um monstro secreto, um mal que alimentam, um dragão que os rói, um desespero que habita suas noites. Tal homem se assemelha aos demais, vai e vem. Ninguém sabe que, em seu íntimo, existe uma terrível dor parasita de mil dentes que vive nesse miserável e que o vê morrer. Ninguém percebe que esse homem é um abismo. É estagnante, mas profundo. De quando em quando uma perturbação aparentemente sem causa se mostra à superfície. Uma ruga misteriosa se dobra, depois desaparece, depois reaparece; uma bolha de ar sobe e arrebenta. É pouca coisa, é terrível”.

(Trecho de “Os miseráveis”, de Victor Hugo)

Rubor

Eu imaginei que, tendo abordado o farmacêutico à porta da farmácia pra perguntar, remédio na mão (uma cartela de amoxicilina, sem caixa, provavelmente tinham saído do pronto-socorro), eu imaginei que eles fossem um casal jovem (pois eram jovens, não mais que vinte anos), recentemente unidos pela lei dos homens e o consentimento de Deus (talvez tivessem enfrentado os pais e ido morar sozinhos, talvez, doentes de afeto, tivessem encontrado um no outro a cura e ido morar sozinhos, talvez, amando-se, ansiosos, quiseram ir morar sozinhos), que, agarrados no amor um do outro, como pilastras de um edifício, enfrentavam a vida com coragem, força e esperança. Pude senti-los; senti seu afeto — senti seu medo. E quando disseram obrigado e se foram, senti que resistiam (a uma tortura? uma agonia? a solidão.). E seus passos se tornaram mais suaves no asfalto encardido.

Torta de morango

A intolerância chegou a tal ponto que nem mesmo as coisas mais banais escapam a ela.

Entrei numa confeitaria a fim de comprar vocês sabem. Perguntei a atendente qual ela me recomendava. Ela me disse que para isso precisava saber que tipo eu queria. Disse-lhe que preferia o “preto” ao branco. Friso aqui o adjetivo que não fora frisado na hora porque nesse momento uma senhora que comia uma torta de morango juntamente com seu filhinho pigarreou e se dirigiu a mim, metendo-se onde não havia espaço:

— Você sabia que isso não é politicamente correto?
— Achei que fôssemos livres para comprar uns pedaços de bolo, eu disse, dando uma de João-sem-braço.
— Refiro-me [ela era chique] ao termo que você usou.
— Bolo?, eu disse, idem.
— “Preto”, disse ela hesitante e quase com temor. Não é certo usar essa palavra; é ofensivo.
— Creio que o bolo não irá se importar. E sorri. A moça que me atendia conteve um riso.
— Eu falo sério!, exclamou ela, avermelhando o rosto. Eles foram escravizados e maltratados por muitos anos. [Desconheço a história dos bolos, mas não acho que enfim]. Devíamos ter mais cuidado, ser mais respeitosos ao nos referirmos a cor da pele deles, a raça deles.

Pensei em me divertir mais um pouco. Imaginei alguns sarcasmos. Mas eu tinha ainda outras coisas a fazer.

— Como devo dizer então: bolo afrodescendente?

Ela foi categórica: — Sim.

Olhei para a atendente, que tapou a boca com a mão, olhei para a senhora, voltei a fitar a atendente e falei:

— Tem sistema de cotas aqui?, e, sem comprar o bolo, deixei a loja.

Não posso confirmar o que ocorreu depois, mas suspeito que a moça da confeitaria tenha dobrado a conta daquela senhora.

Amparo

— Vem cá, infeliz, me dê o teu abraço;
Traze a agonia que estrangula a alma;
Deixa comigo toda a tua calma
E despeja a dor que te corrói no espaço.

Faze de mim teu mais estreito laço.
Eu tenho para ti comida e cama;
E, zelosa, te amparo se me chamas
Querendo alívio para o teu cansaço.

Vem, ó filho querido, que aonde vais
Irá arrancar-te ao peito os doídos ais
O afago que não deu-te a dura Sorte.

Esperançoso, eu disse: — Oh mãe querida,
Como te chamas? Por acaso: Vida?
E ela: — Talvez. Mas eu prefiro: A Morte.

Espelho de prata

Madrugada de uma quarta-feira. A lâmpada do banheiro está queimada. Um restinho de luar penetra o recinto e ilumina o espelho. (Antes não iluminasse.) O que vejo ali me causa arrepios. A imagem refletida não condiz com a que guardo de mim. É um rosto disforme, com um olho abaixo do nariz, a boca [um rasgo] torta, quase na vertical, ligando o queixo ao nariz, o pescoço todo queimado de um lado, cheio de pústulas do outro.

Sinto asco. Um ânsia, uma vontade [uma necessidade] de soltar pela boca o catarro que me incomoda o peito.

Fecho os olhos. Com as mãos vejo o meu pescoço. Como folha nova. Vejo minhas bochechas, minha boca, meu nariz, meus olhos, minha testa, meus cabelos — tudo no lugar. Abro os olhos. Aquele monstro me encara como o retrato de Dorian Gray. Não posso vê-lo. Me recuso. A um só segundo viro o rosto e tapo co’a mão o espelho.

Algumas frases preenchem meus pensamentos. Penso que sonho. Penso que cenas de filmes da noite passada se gravaram em minha mente, marcaram minha imaginação; que a imagem no espelho é apenas fruto da vigília. Volto o olhar àquilo que me reflete. O que vejo ali me regozija, conquanto não se assemelhe com a imagem que guardo de mim. Um rosto jovem, belo, com a barba cheia e espessa, os olhos verdes, de um brilho natural e incomum, o nariz nem grosso nem fino, a boca entre esses dois adjetivos, o queixo quadrado como o de Bruce Wayne. Pelos ombros, largos, noto que veste um terno preto, elegantemente.

Se apodera de mim uma esperança infinita. Olho para fora, pela janela, e a lua parece mais brilhosa. Meu recinto está mais claro, como se fosse dia. Um vigor hercúleo toma conta de minha alma. Sinto-me capaz de tudo. Minha força, para além do corpo, é minha imaginação.

De repente, sobe-me pelos pés, como uma trepadeira, uma angústia fria, que, como as mãos de uma sedutora mulher, me entorpece, chega ao meu pescoço — e o espreme.

Solto gemidos. O espelho agora é baço.

Eu sou

Eu sou aquele que ficou num sonho
Aprisionado por um vil carrasco;
E que no curso da vivência estando
Não fez marcar da identidade o rastro.

Eu sou aquele que pensou ser casto
Mas era apenas inseguro e estranho.
Eu sou também o que sorriu mais fácil,
Mas era só, e, sendo assim, tristonho.

Leve de mim, ó Deus, o que não tive;
Leve de mim o que me satisfaz;
Leve de mim o meu futuro e o dom

Que me fez ser quem sou. Só não me tire
A tristeza a que sou propenso assaz
E, à morte, eu lhe darei o meu perdão.

A escuridão

Co’as páginas de Maigret e os Homens de Bem interrompidas para as ler na noite seguinte, meti o dedão no interruptor e afundei no travesseiro. Carinho costumeiro, dei boa noite à minha esposa, a beijei e fechei os olhos. Despertei estava de bruços. Uma sensação estranha enchia tudo em volta de mim, como o ar, como se eu estivesse só. Co’a respiração suspensa por um segundo, um filme em pausa, estiquei o braço sobre minha esposa; em seu lugar, senti envolver minha mão uma substância igual ao piche. Um arrepio provocou meu corpo, enfunou meus cabelos. Abri os olhos! Uma mulher, cabelos desgrenhados, o rosto cinza, a pele como que seca, descascando, me olhava sinistra, os olhos pretos como um besouro. Tinha um dedo sobre a boca. E me pedia silêncio.